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🖊AMANDA HERRERA
1️⃣ Sobre você
Meu nome é Amanda, sou do Rio de Janeiro e escrevo desde muito nova. Mas, há pouco tempo, isso deixou de ser apenas um hobby para se tornar uma verdadeira paixão. Sempre fui fascinada por fantasia e por universos que funcionam como portais. A escrita virou meu jeito de entender o mundo e a mim mesma, além de ser uma forma de criar mundos melhores.
Me inspiro muito em autores que trabalham emoção, mitologia e personagens complexos, daqueles que fazem a gente realmente entrar no universo enquanto lê. Entre meus livros favoritos estão Senhor dos Anéis e Harry Potter, mas também leio bastante romance e suspense. E sou completamente apaixonada pelas histórias de Sherlock Holmes.
2️⃣ Como conheceu o grupo
Conheci o grupo através do Facebook. A primeira impressão foi muito positiva. No início não pude acompanhar tanto quanto gostaria, mas hoje não consigo passar um dia longe. É um espaço acolhedor, divertido e cheio de pessoas que realmente amam literatura. Estou gostando muito da troca, do apoio e da energia criativa que o grupo tem. Eles realmente te abraçam e fazem você se sentir parte de uma família.
3️⃣ Administrando o Instagram
Tem sido uma experiência bem legal. Gosto da parte visual, de organizar conteúdos e de pensar estética e comunicação. Cuidar do Instagram me permitiu conhecer melhor o grupo e participar de forma mais ativa. É gratificante ver o retorno das pessoas e ajudar a construir essa presença online.
Nossa meta é alcançar cada vez mais pessoas e torná-las parte da família. Queremos que todos encontrem um espaço onde possam dar opinião, participar e se sentir realmente acolhidos.
4️⃣ Sobre ganhar o concurso
Fiquei muito feliz e, para ser sincera, realmente surpresa! É uma sensação muito boa ver seu trabalho sendo reconhecido. Eu nunca tinha escrito um conto de terror, então ganhar logo na primeira experiência foi extremamente gratificante. O Pix virou um mimo pra mim mesma: aproveitei a Black Friday e comprei mais um livro.
5️⃣ Mensagem final
Quero agradecer pelo carinho, pela recepção e pela troca que tivemos até agora. Literatura é ponte, e estar aqui me lembra por que escrevo: para sentir, para dividir e para criar junto. Espero que venham muitos textos, trocas e histórias daqui para frente.
E, claro, deixo um convite especial: conheçam Crônicas de Nivarea, uma saga de fantasia épica que nasce entre luz e escuridão. Em um mundo marcado por profecias antigas, reinos em guerra e magia que respira por baixo da terra, acompanhamos o surgimento de uma herdeira destinada a reequilibrar forças que nunca deveriam ter despertado. Entre elfos, bruxos, humanos, vampiros e criaturas ancestrais, cada escolha acende ou destrói caminhos inteiros.
É um universo de mistério, beleza e caos, onde o coração pesa tanto quanto a espada e onde nenhuma alma sai igual ao entrar.
As Crônicas de Nivarea
- O que é o livro, como se sente ao escrever, o que te inspira?
É uma história de fantasia, mas no fundo fala sobre escolhas, poder e consequências. Sobre o que acontece quando alguém é colocado no centro de algo maior do que pode controlar e precisa decidir quem vai se tornar a partir disso. O mundo é fantástico, com magias e seres míticos, mas os conflitos são profundamente humanos.
Às vezes é alívio, às vezes é exaustão. Escrever não é sempre prazeroso, mas é sempre necessário. É o jeito que encontrei de organizar o que sinto e de dar forma a coisas que, de outro modo, ficariam soltas dentro de mim.
Na maioria das vezes, pessoas imperfeita, silêncios que gritam. Perdas que não são ditas em voz alta.
Também me inspiram mitologias, paisagens naturais e a sensação de algo antigo que insiste em sobreviver. Mas, acima de tudo, me inspira a necessidade de contar histórias que já não cabem dentro de mim, e nem em frases simples.
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Era uma noite de Halloween.
Uma cidadezinha brasileira interiorana qualquer... Aqui, não se comemora Halloween, aqui não tem doces ou travessuras, apenas um casal qualquer, cansado de um dia corriqueiro de trabalho, sentados no sofá, dividindo um cobertor e beijos entre uma e outra taça de vinho.
Mal prestavam atenção no filme, Jason Voorhees fatiava adolescentes em Crystal Lake, já haviam assistido a esse filme dezenas de vezes, um abraço apertado, conversas sobre o dia, mais beijos.
Não estava muito tarde, ainda não era meia-noite, no entanto, o horário era tarde o suficiente pra não se esperar qualquer visita. No filme, Vickie abre um armário... e lá está o corpo de um amigo morto, caindo em cima dela...
E, justo por um capricho cruel do destino, nessa hora a porta faz um barulho: TOC TOC TOC!
Suave, ritmado.
Levemente insistente.
A mulher deu um gritinho, travou no abraço de seu amado, olhos arregalados.
— Amor... Quem está a bater assim, a essa hora?
O homem, tomado de uma masculinidade inquebrável, encarou a porta, esperando bater de novo. Pensando o que faria, pensando onde estava o facão, a enxada, qualquer coisa caso fosse um invasor.
O silêncio aumentou, um deles pausou o filme e apenas observou a porta principal.
De novo, um pouco mais forte:
TOC TOC TOC!
Os dois se olharam, a esposa apertava tanto o braço do companheiro que seus dedos deixaram marcas.
— Calma querida, não deve ser nada demais. — Sussurrou ele baixinho pra ela, então engrossando a voz, falou mais alto: — Quem está aí?
O silêncio parecia durar uma eternidade antes de uma vozinha fina, infantil, responder, num tom calmo e apático:
— Por favor... me ajude! — disse a primeira voz, parecia ser uma menina.
— Estamos com frio. — disse a segunda voz. Dessa vez de um garoto.
A mulher, seguindo um instinto materno primal, levantou-se rápido e foi olhar na janela mais próxima, viu apenas pequenas silhuetas, ali, dispostas na frente de sua pequena casa interiorana. O vento que soprou, mesmo com as janelas fechadas, foi forte e fez seus cabelos dançarem no rosto.
A temperatura caiu pelo menos uns dois graus dentro de casa. O marido, agindo rápido, disse, já pegando o celular:
— Vou ligar pro 190, não abra a porta, pode ser algum bandido usando crianças, vi isso no Datena, se elas precisarem de ajuda, a polícia vai saber o que fazer, querida! — Seus dedos eram rápidos e o desejo da mulher de abrir a porta também.
— Como pode ser tão cruel? Está um gelo lá fora... Vou abrir!
A mulher, tomada por um desejo incontrolável, avançou determinada até a porta da sala.
O marido, percebendo a urgência estranha no olhar dela, segurou-a pela cintura, puxou com força e a prendeu contra o peito, mantendo-a afastada da maçaneta enquanto, com o celular encostado na orelha, a voz nervosa avisava à polícia sobre as crianças desconhecidas à porta.
O operador do outro lado perguntava endereço, detalhes, mas o foco dele já se perdia entre o medo e o esforço para conter a esposa.
— Você não está vendo? Elas estão precisando de ajuda! Sozinhas, indefesas... — insistia ela, aos gritos, as palavras com ausência de qualquer lógica.
— Meu amor, se acalme! Eu já te disse, isso pode ser golpe, tem bandido que usa criança! A polícia já está vindo! Eu vi no Datena, mulher, se aquiete! — a voz dele, trêmula, tentava ser firme, mas a convicção se esvaía aos poucos conforme as crianças insistiam.
As batidas na porta ficaram mais intensas, desesperadas. A maçaneta girou, uma, duas vezes, com força excessiva. Estavam tentando entrar à força.
O susto aumentou quando as batidas vieram a se espalhar: portas, janelas, a entrada dos fundos da cozinha... tudo vibrava com o mesmo pedido. Vozes múltiplas, infantis, agora falavam em coro:
— Deixa a gente entrar... deixa a gente entrar... estamos com fome... estamos com frio... Por que não deixam a gente entrar?
Uma menininha apareceu na janela, olhos negros e um urso decapitado em suas mãos...
Era noite de Halloween.
Mas não aquele Halloween de filme, com abóbora, criança gritando "trick or treat" e vizinho com fantasia de fantasma. Era interior do Brasil. Rua de terra cheia de poça velha, poste amarelo piscando, cachorro latindo pro nada, cheiro de terra úmida com folha.
As casas já estavam todas apagadas, cortina fechada, gente que acorda cedo no outro dia. Não tinha fantasia. Não tinha "doces ou travessuras". Tinha silêncio. E uma casa com a luz acesa.
Dentro dela, um casal normal. Sofá meio afundado, Sexta-Feira 13 passando pela milésima vez, uma garrafa de vinho quase morta, os dois enfiados no mesmo cobertor, aqueles beijos de fim de dia. Jason já tava no meio de mais um massacre, mas aquele terror da TV era o terror que a gente escolhe: conhecido, previsível, de mentira. Servia pra fazer barulho.
Não era nem meia-noite ainda, mas já era tarde o suficiente pra ninguém estar na rua batendo em porta de ninguém.
Na TV, a menina do filme abria um armário e o corpo do amigo caía em cima dela. E aí, bem nessa hora, a porta da casa:
TOC. TOC. TOC.
Não foi barulhão. Foi preciso.
Três batidas do mesmo tamanho, mesmo intervalo, parece até que a pessoa tinha treinado aquilo.
A mulher deu um gritinho e agarrou o marido.
— Amor... quem bate assim a essa hora?
Ele soltou um risinho, aquele de quem quer parecer calmo.
— Ah, deve ser o vento...
Só que vento não conta até três. Vento não espera você responder.
Ele ficou olhando pra porta. O filme passou pra segundo plano. A casa, que tava puro aconchego, pareceu prender o ar.
De novo:
TOC. TOC. TOC.
A boca dele secou.
— Quem tá aí? — perguntou, forçando uma voz de "sou o homem da casa, não há nada para se preocupar".
Silêncio. Demorou alguns segundos.
Aí veio.
Uma voz de criança. Bem fininha, de menina. Mas sem choro, sem nervoso.
— Por favor... me ajuda.
Logo depois, outra voz, de menino, um tom mais baixo:
— A gente tá com frio.
A mulher levantou sem pensar. Foi até a janela e puxou só um tantinho da cortina.
Lá fora, embaixo da luz meio morta do poste, duas crianças.
Paradas. De mãos dadas. Pequenas demais pra estarem na rua aquela hora.
E aí o frio entrou.
Não foi o frescor da noite.
Foi um sopro gelado que atravessou a janela fechada, quase apagou a vela da estante e encheu a sala com aquele cheiro doce e velho, cheiro de coisa que ficou muito tempo dentro d'água ou guardada em um baú úmido.
Era um frio úmido, daqueles que passam do casaco e se sente no osso.
— São só duas crianças! — ela sussurrou, já com o olho brilhando. — Estão com frio, amor!
O marido foi direto pro celular.
— Não abre, amor. Sério. Tem bandido que usa criança. Vi isso no Datena. Vou ligar pro 190, pronto. Se forem mesmo crianças, a polícia resolve.
Enquanto ele falava, ela ficou olhando a porta. Não era medo o que ela sentia. Era pena. Era aquele buraquinho que fica quando a gente já perdeu alguma coisa. Um pensamento que nem era muito consciente: podia ter sido o meu. Se eu tivesse tido. Se tivesse vingado.
E então ela ouviu. Não eram as batidas. Não era a TV. E não era da rua.
Era uma música.
Bem baixinha.
Com ritmo de cantiga de roda.
Mas não era cantiga de escola.
"Dois frios batem na porta,
dois frios querem entrar,
dois frios vieram da água,
dois frios querem te levar..."
Ela arregalou os olhos, com medo.
— Amor... — falou baixinho — você tá ouvindo isso?
— Ouvindo o quê? As batidas? — ele já tava quase gritando com o 190 — tô ouvindo sim, por isso que eu tô ligando! Não abre essa porta! — e pro atendente: — ...isso, duas crianças, em frente à casa, Rua 10, interior, sim, minha esposa quer abrir, manda uma viatura, por favor...
A cantiga não parou.
Entrou outra voz junto, afinadinha, igual, mas sem afeto. Criança que canta muito certinho, como quem só repete algo que aprendeu:
"Se alguém disser que sim,
a casa vai se acender.
Se ninguém disser que sim,
a casa vai morrer."
A lâmpada da sala piscou uma vez. Piscou duas. Piscou três.
Agora não era mais só "preocupação" nem o terror conhecido, previsível e de mentira como o do filme do Jason. Era medo mesmo.
A TV apagou.
O ar esfriou tanto que a respiração da mulher saiu branca.
Ela chorou.
— Elas vão morrer se eu não abrir... — falou num choro afogado. Mas teve alguma coisa errada ali, porque saiu como se tivesse outra pessoa usando a voz dela. — Elas tão com frio...
Antes de ela chegar na porta, algo mexeu na janela.
O marido olhou. E travou.
Tinha um menino colado no vidro.
Mas colado mesmo: rosto espremido, nariz achatado, testa na janela.
Os lábios esticados num sorriso estranho, grande demais, daqueles que o rosto não foi feito pra fazer.
Os olhos... não tinham branco. Eram buracos pretos. Não refletiam a sala. Não refletiam vida. Não refletiam nada.
E o pior de tudo: não saía vapor da boca dele.
Tava lá fora, no sereno, mas não parecia respirar.
O marido recuou.
A mulher, que devia ter recuado, como manda a lógica, foi pra frente.
O menino mexeu a cabeça devagarzinho, tipo "oi", e cantou só pra ela:
"Abre, moça de mão quente,
abre e deixa a gente entrar..."
Era pra ela. Não era pra ele. Ela pegou a maçaneta.
— NÃO! — o marido voou nela, o celular caiu no chão — NÃO ABRE!
Mas já era tarde demais, ela já tinha girado.
Do celular caído dava pra ouvir, bem baixo:
"senhor? senhor, continua na linha?"
A porta abriu um palmo. E foi o suficiente.
Do lado de fora, a outra criança. Magrinha, encharcada, vestido branco colado no corpo, pé descalço no cimento frio da varanda.
Na mão, um urso de pelúcia sem cabeça, o pescoço arrancado no tranco, na força, não cortado certo.
E os olhos. Preto absoluto. Olho que não olha: reconhece.
A menina sorriu.
O vento entrou pela frestinha e trouxe um cheiro pior: cheiro de rio parado, barro do fundo, algas, carne apodrecida.
Ela encostou três dedinhos na porta e empurrou bem de leve.
A porta abriu o resto sozinha, como se a casa tivesse concordado.
— NÃO! — o marido correu pra cozinha, pegou a faca grande. — NÃO ENTRA!
Mas já estavam dentro.
Primeiro a menina do urso. Depois o menino do sorriso. E atrás deles, o escuro da noite pareceu dar cria e tomar forma de mais crianças. Baixinhas, molhadas, cabelo grudado de lama, vestido rasgado na altura do cinto de segurança.
Onde passavam, o chão ficava frio e molhado, e o cheiro de carne podre começou a subir.
Parecia gente que o rio devolveu depois de dias. Meses. Anos.
— Sai da minha casa! — o marido gritou.
A mulher ficou na frente das crianças, como quem defende.
— Não machuca eles... — falou, e a voz dela bateu duas vezes no ar, a dela e uma outra desconhecida. — Eles só tavam com frio... queriam abrigo.
— ISSO NÃO É CRIANÇA! — ele urrou. — VOCÊ TÁ CEGA OU APENAS LOUCA?
As crianças pararam. Todas. Viraram o rosto ao mesmo tempo. Os olhos pretos, idênticos, parecia o mesmo olho em vários rostos.
E cantaram dentro da sala, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
"Os frios batem devagar,
os frios querem morar..."
Ele avançou e meteu a faca numa delas.
Entrou. Mas não entrou como carne viva. Entrou como quem enfia faca em carne congelada.
O ombro abriu com um ploc, o braço caiu no chão... e continuou mexendo, a mão tentando agarrar o pé dele. Ele chutou para longe com a cara de quem não podia estar acreditando no que via.
A criança olhou pro buraco no ombro, depois pra ele, e o sorriso abriu mais.
— A gente não sente mais falta dessas partes — disse. — A gente só sente falta de quente.
Duas agarraram as pernas dele.
Mão pequena, dedo fino. Mas a força... não era força de criança.
Onde elas encostaram, a pele dele ficou branca, depois roxa, depois cheia de rachadura, como pele queimada de frio.
— LARGA SUA PIRRALHA! — ele chutou e espraguejou.
Uma delas voou pro lado, caiu no chão como pano molhado, o pescoço fez crac, e ela levantou de novo, torta, andando de novo.
O olho nunca piscava.
O chão molhado fez reflexo do que vinha depois.
Aquela menina não veio andando. Veio dobrada.
As costas arqueadas num ângulo que ser humano não faz, braços esticados, dedos arranhando o piso como garra, o corpo andando ao contrário, como se alguém tivesse montado as juntas erradas.
Cada mexida fazia som de osso antigo quebrando por dentro.
O cabelo cheio de lama caía na frente do rosto, e por entre o cabelo dava pra ver a pele cinza, rachada, brilhando como quem está molhado de água de rio não de suor.
Ela avançava de quatro, cotovelo virado pra trás, joelho batendo no piso.
Quando levantou a cabeça, os olhos negros e o sorriso abriu até quase rasgar o canto da boca.
O marido tentou recuar, mas ela já tava correndo daquele jeito torto, braços e pernas indo pra lados diferentes, as mãos batendo no chão num tac-tac-tac seco, igual bicho grande com várias patas.
A mulher, chorando, sentou no sofá com duas das menores no colo.
O vestido gelado delas molhou a blusa dela, o cheiro de rio subiu, e ela aceitou.
Começou a ninar, como se finalmente tivesse conseguido ter filhos:
"Abre, moça de mão quente,
abre e deixa a gente entrar..."
— Amor! — o marido gritou, o frio já entrando na barriga — OLHA PRA MIM!
Ela olhou. Os olhos dela estavam começando a escurecer, como tinta se espalhando em copo d'água.
— Eles disseram... — sussurrou, e já não era só ela falando — ... que se eu deixasse, levavam só você.
— Aí eu fico com eles. Vou poder ser mãe.
Do corredor escuro, veio uma voz que não era de criança.
Era pesada, arrastada, com barulho de água no fundo.
A voz usou a boca de um menininho pra falar:
— Ele não quis. Ela quis. A casa escolheu.
— Quem abre um palmo, abre o corpo.
As luzes morreram.
O homem sentiu o frio entrar onde as mãos seguravam.
Mas não ficou ali.
Subiu pro sangue. Foi pros ossos. Foi pro peito.
O ar que ele puxava vinha morno, mas o que saía era gelo, como se por dentro ele tivesse virado um freezer ligado no máximo.
Ele tentou levantar a faca de novo, mas uma das crianças segurou o pulso.
Aquela mão pequena apertou até o punho fazer crec.
A faca caiu.
— Fica quieto — a menina do urso sussurrou bem pertinho, sem cheiro nenhum de boca viva. — Vai afundar mais rápido. Não vai doer, eu prometo.
Ele tentou gritar.
Outra criança pulou nas costas dele. Fria, grudenta, leve e sufocante ao mesmo tempo.
Mais uma enfiou a mão gelada dentro da camisa dele, direto na pele.
O peito dele arqueou como se tivesse tomado água gelada por dentro.
No chão, o celular ainda ligado:
"alô, senhor? senhor?"
A TV ligou sozinha.
No sofá, a mulher, agora com os olhos quase totalmente pretos embalava e cantava, feliz:
"Se alguém disser que sim,
a casa vai se acender..."
E a casa acendeu, não de luz, mas de criança invisível correndo, de sombra miúda passando pelo corredor, de risadas e músicas cantaroladas.
O dia seguinte
De manhã, o portão tava aberto.
O carro, na garagem.
O cachorro da vizinha, uivando pra casa.
Chamaram a polícia.
A porta da sala tava do mesmo jeito: um palmo aberta.
Lá dentro, o ar tava muito mais frio que do lado de fora.
Incomum.
Não tinha corpo.
Não tinha sangue.
Mas o chão tava cheio de marquinhas de pé pequeno, descalço e molhado, saindo da porta e indo até o corredor... e sumindo na frente do quarto de hóspedes, como se tivessem entrado num lugar que não tá ali pra gente.
O cheiro era de lama, de vela que apagou, de rio parado.
No sofá: um urso de pelúcia sem cabeça, encharcado.
No vidro da janela, escrito com o dedo de dentro pra fora:
"Eles não estão mais com frio."
Todos os relógios tinham parado em 00h03.
Os peritos falaram que as câmeras embaçavam lá dentro.
Não tinha ar-condicionado ligado.
Não tinha freezer aberto.
Não tinha explicação.
Um dos policiais, no banheiro, jurou que viu pelo espelho duas crianças no vão da porta: molhadas, com os olhos pretos, sorrindo.
Mas quando virou, não tinha nada.
Mais tarde, na rua, o povo comentou:
— Isso aí tem a ver com o ônibus do rio.
Vinte anos antes, um ônibus escolar caiu no rio da estrada de trás.
Doze crianças.
O motorista morreu agarrado no volante.
Nem todas as crianças subiram.
E tinha quem dissesse: em noite sem lua, o vento que vinha daquela curva vinha cantando.
Naquela mesma noite, o vizinho da frente acordou com uma musiquinha muito baixa vindo da casa vazia:
"Dois frios batem devagar,
dois frios querem morar..."
Ele foi fechar a cortina.
Quando puxou, viu duas marcas de rosto no vidro: pequenas, na altura de criança e, no meio, um sorrisinho desenhado com o dedo.
A Lenda
Dizem que o frio daquela casa nunca mais saiu.
Dizem que, quando a noite tá sem lua e o vento desce dos morros e passa no rio onde o ônibus caiu, a cantiga volta.
"Dois frios batem na porta,
dois frios querem entrar..."
Não é todo mundo que ouve.
Só quem tem o coração frouxo pra criança.
Só quem perdeu.
Só quem tem calor sobrando.
E se abrir a porta, mesmo que seja só um tiquinho, mesmo que seja "só pra ver se estão bem", então, antes das 00h03, vai sentir o frio chegando por dentro.
Primeiro na pele, depois no osso, depois na cabeça, até o pensamento ficar lento e tudo escurecer, como os olhos.
E, no vidro da janela, alguém vai escrever:
"Eles não estão mais com frio."
Se olhar de perto, vai ver também o sorriso.
O mesmo sorriso grudado no vidro naquela noite.
BONUS:
OLHA QUE DOGUINHO MAIS LINDO DA AMANDINHA GENTE!
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Um comentário:
Parabéns Amanda!! Você arrasa 🧡
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