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🏆✨ PARABÉNS À VENCEDORA DESTA EDIÇÃO! ✨🏆
Com muita criatividade e uma escrita envolvente, a autora Sandra de Almeida conquistou o primeiro lugar desta edição com o texto “A Última Ceia” 🖋️📖
Foram 34 estrelas ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐
A Obra está simplesmente incrível e deixou sua marca entre os leitores.
👏 Parabéns, Sandra! Sua vitória é mais do que merecida.
Agora, convidamos você a conhecer um pouco mais sobre a autora ✨
e, em seguida, mergulhar na leitura de “A Última Ceia” 🍞🕯️
Boa leitura! 📚💫
🍷 A última ceia
Na véspera do Natal, poucos falam sobre isso. É como uma superstição que ninguém quer admitir que conhece, mas que todos , de alguma maneira temem.
Há quem chame de lenda urbana, há quem diga que é apenas um conto para assustar gente solitária. Mas quem viveu… bem, quem viveu não costuma querer comentar. E quem não viveu provavelmente vai viver um dia. Basta estar sozinho no dia 24.
É por isso que Isabel tentava fingir que não estava realmente sozinha naquele Natal.
Os seus pais tinham falecido há alguns anos, a irmã morava em outro país, e os poucos amigos tinham suas próprias famílias. Ela jurou que não se importava…
Jurou a si mesma, aos colegas de trabalho, e aos amigos, que tudo o que queria para o feriado era paz, silêncio e um bom vinho. Jurou tantas vezes que começou a acreditar… até a manhã do dia 24.
No café, enquanto mexia o açúcar na chávena, viu na televisão do restaurante uma reportagem sobre tradições natalícias estranhas ao redor do mundo. Entre elas, uma frase se destacou na reportagem
— “E em uma pequena cidade a norte de Portugal, existe a lenda da Ceia Solitária, uma mesa fantasma que surge na casa de quem passa o Natal sozinho…”
Isabel desviou o olhar imediatamente. Era coincidência. As pessoas adoravam esse tipo de história.
Mas a imagem que apareceu na TV(uma mesa posta perfeitamente, com velas negras e vermelhas, pratos de porcelana e talheres de prata ),fez seu estômago ficar às voltas .
Ela já tinha ouvido aquilo antes…
Uma vez, quando tinha 16 anos, a sua avó contara a história como um aviso.
“Se estiveres sozinha na noite de Natal e uma ceia aparecer na tua casa, senta-te mesmo que a comida esteja fria ,mesmo que sintas medo, senta-te…O que entra pela porta se não te sentares , não é deste mundo…”
Ela riu dela nessa altura... Chamou de parvoíce...
Mas alguns anos depois, quando a avó faleceu, o recado gritava na memória, mais forte do que nunca…
E agora, naquela manhã, aquela sensação voltara …
— Que parvoíce — murmurou Isabel , enquanto terminava o café e pagava a conta.
Depois disso, decidiu passar o dia todo ocupada: limpou a casa, reorganizou as prateleiras, assistiu a filmes um tanto ou quanto mauzinhos e abriu o vinho antes da hora.
Tudo isto era para evitar o silêncio … o tipo de silêncio que deixa espaço para a imaginação…
Quando o relógio marcou 23h40, Isabel sentou-se no sofá, tentando ignorar aquele desconforto.
Era como se a própria casa estivesse a aguentar a respiração,em modo suspense como quem está à espera de alguma coisa …
“É só uma história.” - pensou
Repetiu. E repetiu. E repetiu… não parava de repetir que era só uma história…
Então, às 23h59, a luz piscou.
Uma vez…
Duas vezes…
Três…
A casa mergulhou por um breve instante em completa escuridão…
Isabel levantou-se no mesmo segundo, com o coração acelerado…
Ela conhecia cada centímetro daquele apartamento e sabia que não havia deixado nada na mesa da sala. Não havia sequer uma toalha…
Mas quando a energia voltou, o cenário tinha mudado…
E acreditem, mudou completamente…
A mesa estava ali…
Isabel engoliu em seco ,devia ser uma brincadeira, alguma invasão , qualquer coisa lógica… mas quanto mais ela observava, mais impossível se tornava acreditar em algo racional…
A mesa que antes estava vazia, agora estava coberta por uma toalha bordada com linhas douradas que refletiam a luz das velas… havia quatro lugares postos, cada um com pratos de porcelana muito fina e talheres de prata brilhante...
No centro, uma travessa de peru assado fumegava , ao lado de frutas cristalizadas, bolo rei, queijos, um jarro de vinho e até mesmo um pequeno sino prateado ali se encontrava … sem dúvida uma mesa composta tal e qual como muitas mesas na véspera de Natal…
Mas o que realmente gelou a sua espinha foram os cartões posicionados diante de cada prato…
O primeiro dizia: “Helena Duarte 1954–2012”.
A mãe.
O segundo: “Rogério Duarte
1951–2018”.
O pai.
O terceiro: “Marcos Vieira
1986–2024”.
Ela reconheceu o nome de um colega de trabalho que estava internado havia semanas, sem previsão de haver melhoras …
E o quarto cartão…
O quarto cartão estava virado para baixo, e Isabel não precisava levantá-lo... Ela sabia… sentiu um arrepio correr pelos ossos…
A mesa inteira parecia vibrar levemente, como se estivesse à espera de algo…ou à espera de alguém…
A avó sempre dissera:
“Senta-te antes que algo venha se sentar no teu lugar.”
Mas se sentar-se fosse pior? E se aceitar se sentar fosse uma espécie de convite para… para … oh meu deus …
Ela ficou parada, imóvel, a tentar decidir o que realmente fazer …
Foi quando ouviu o primeiro som.
Tec… tec… tec…
Passos no corredor do prédio…
Passos muito lentos…
Passos muito pesados…
E eles estavam cada vez mais próximos…
O pânico começou a contorcer o estômago de Isabel…ela correu até a porta e verificou se estava trancada…
Estava... Duas vezes… Mas os passos continuavam…
Tec… tec… tec…
E foi então que alguém ou algo tentou girar a maçaneta da porta …
Não bateu, não chamou por ninguém…
Apenas tentou entrar…
A mesa atrás dela pareceu suspirar, como se estivesse cansada de esperar…
As velas estremeceram apesar de não haver vento nenhum…
E o sino…o pequeno sino no centro da mesa , tilintava sozinho…
Foi o suficiente para quebrar o bloqueio mental de Isabel …
Ela então correu até a cadeira onde estava o cartão virado e sentou-se de uma vez… toda ela tremia e tinha a respiração ofegante…
No exato segundo em que seu corpo tocou a cadeira, quem quer que fosse que tentava abrir a porta , parou…
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que parecia estranho e sobrenatural…
As velas acenderam um pouco mais forte, como se estivessem a aprovar a decisão.
Isabel tentou controlar a respiração enquanto os seus olhos, quase involuntariamente, encararam o cartão diante dela … com a mão a tremer completamente, virou-o…
“Isabel Duarte
1987–??”
Ela quase caiu da cadeira…
— Não… não, não, não…
A data de nascimento estava certa, mas os pontos de interrogação no lugar do ano da morte pareciam flutuar ameaçadoramente sobre o papel…
Ela sentiu a casa mudar…
A madeira rangia…as janelas vibraram...
A mesa parecia respirar lenta mas profundamente…
— O que vocês querem? — sussurrou, sem saber exatamente com quem estava a falar ...
E então ouviu uma cadeira a mexer-se sozinha…
Outra cadeira…
E mais outra…
As três cadeiras restantes deslizaram alguns centímetros, como se alguém tivesse sentado em cada uma delas, ou seja ,presenças invisíveis estavam a acomodar-se na mesa …
O ar ficou gelado…a vela à direita apagou-se … depois a da esquerda…
A frente de Isabel ficou escura, iluminada apenas pela vela central…Ela sentia que não estava mais sozinha …
Algo inclinou-se sobre seu ombro , ou talvez fosse apenas imaginação, e um cheiro familiar atingiu o seu olfacto …
Perfume floral.
O perfume da mãe…
— Mãe? — murmurou, incrédula com lágrimas nos olhos …
Mas ninguém respondeu…
A temperatura à sua volta subiu ligeiramente, e a comida na travessa que antes fumegava, começou a ficar fria muito rápido, como se algo estivesse a absorver o calor…
A avó tinha dito:
“Come... não precisas acabar tudo …come só o suficiente ,eles precisam lembrar-se que tu ainda pertences ao mundo dos vivos.”
Com a mão trêmula, Isabel pegou no garfo…
Cortou um pequeno pedaço de peru e levou-o à boca…
O sabor era real ,perfeitamente temperado ,simplesmente delicioso…mas ao mesmo tempo tinha um sabor meio metálico, o que fez o seu estômago revirar…
Quando engoliu a comida, algo mudou...
A casa pareceu relaxar …
O ar ficou mais leve e os passos do corredor recuaram e desapareceram completamente…
Mas a ceia não acabou por ali …
Um som preencheu o ambiente, um som que não deveria estar presente, como se três pessoas estivessem a mastigar juntamente com ela…
Era suave, ritmado, mas inconfundível.
Mastigação… sim sem dúvida era som de mastigação…
Isabel congelou…
As cadeiras à sua frente estavam ocupadas por algo que mastigava o que quer que fosse, mesmo sem comida visível nos pratos…
Ela tentou parar…
Tentou levantar-se…
Mas sentiu uma pressão invisível sobre seus ombros que a mantiveram sentada…
— Já basta — conseguiu murmurar.
E então, como se a mesa estivesse a cansar-se do ritual, o sino tocou novamente…
As cadeiras afastaram-se sozinhas…
O ar voltou ao normal…
A vela reacendeu…
Toda a comida, todos os pratos, toda a toalha e até os cartões ,desapareceram…
A mesa estava vazia novamente.
A porta do apartamento voltou a trancar-se , ela ouviu nitidamente o clique da fechadura embora ninguém estivesse ali para fechá-la.
Isabel ficou sentada, em choque…
Tudo tinha acabado.
Nos dias seguintes, Isabel tentou seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Convenceu-se de que era algum tipo de alucinação causada pela solidão, pelo álcool, por noites mal dormidas.
Mas eis que recebeu a notícia…
Marcos Vieira, o colega de trabalho ,tinha falecido na madrugada do dia 25.
E isso a destruiu…
Ela tentou esquecer ,tentou ignorar , tentou ser racional…
Na noite de 23 de dezembro do ano seguinte, enquanto lavava a louça, percebeu que havia um cartão sobre a mesa,virado para baixo…
Frio ao toque..
Ela não o tinha colocado lá , e ao levantá-lo, encontrou apenas duas palavras escritas com tinta vermelha:
“ Até amanhã”
Isabel sentiu o coração disparar, como se cada batida anunciasse algo que ela ainda não tinha coragem de admitir…
O cartão deixado sobre a mesa não era um aviso qualquer. Era uma promessa ,
um lembrete ,de que aquilo que aconteceu na última véspera de Natal não tinha sido um evento isolado , era um ritual , um encontro marcado , e agora ela sabia que jamais conseguiria fugir daquele pesadelo…
Naquele ano, tentou preparar-se…
Passou semanas a pesquisar relatos, a vasculhar blogs obscuros, fóruns antigos, comentários perdidos em redes sociais... Em cada busca que fazia, encontrava apenas pequenas menções, pedaços de histórias contadas por pessoas que também tinham passado o Natal sozinhas, todas com a mesma estrutura: ceias apareciam do nada, cartões com nomes de falecidos, portas que se mexiam sozinhas, presenças invisíveis...mas não havia nenhum relato a dizer como tudo tinha terminado ,pois ninguém que passara pela segunda ceia, a do ano seguinte, tinha deixado testemunhos…
Alguns perfis simplesmente desapareciam…outros eram encontrados inativos por meses, até serem apagados automaticamente pelo sistema… era quase como se aquelas pessoas tivessem desaparecido em silêncio…
Na noite do dia 24, Isabel tentou se convencer de que estava preparada…
Comprou velas, símbolos religiosos, sal grosso, amuletos…
Encheu o apartamento com luzes acesas, como se a claridade pudesse afastar a escuridão que se aproximava… mas, no fundo, sabia que nada disso importava…
Às 23h50, a inquietação começou…
O frigorífico fez um som estranho, como se algo raspasse por dentro dele... os quadros na parede vibraram levemente, apesar de não haver vento.. as luzes piscaram, não como falha de energia ,mas como se alguém estivesse a brincar com o interruptor…
Às 23h58, Isabel começou a ouvir novamente o som que mais temia…
Tec… tec… tec…
Passos arrastados… pesados…lentos... os mesmos passos do ano anterior…
Ela fechou os olhos por um instante... a respiração falhou…
23h59…
A casa apagou-se completamente…
Por um segundo que pareceu durar uma eternidade, ela ficou presa no escuro absoluto… nenhuma luz da rua… nenhum reflexo… nenhuma sombra…apenas vazio…
Então, em um segundo, tudo acendeu novamente…
E a mesa estava lá…
Desta vez, porém, havia cinco lugares.. a toalha era ainda mais sofisticada: bordas negras costuradas à mão, flores vermelhas estilizadas formando padrões que lembravam espinhos…
As velas, altas e finas, queimavam com chamas azuladas…
Os cartões estavam dispostos em perfeita simetria.
O primeiro trazia o nome de sua mãe.
O segundo, de seu pai.
O terceiro, de Marcos Vieira, o colega que falecera.
O quarto , a sua avó.
E o quinto…
O quinto permanecia virado para baixo, no lugar onde Isabel deveria sentar-se , só que havia algo de diferente nele…
Era maior…
Mais pesado…
A borda parecia ter sido queimada, como se o cartão tivesse passado pela mão de algo que estava ardente como que estando em fogo…
Isabel deu um passo para trás, mas bateu com as costas na parede…
A sala parecia menor, como se a mesa tivesse crescido, ocupando mais espaço do que ocupava antes.
E então eis que …
A porta da rua bateu , de dentro para fora…
Isabel sufocou num grito…
Alguém ,ou alguma coisa ,estava dentro do apartamento antes de a mesa aparecer sequer e agora havia saído…ou será que estava à espera?…
O sino no centro da mesa tilintou devagar, como tocado por dedos invisíveis…
As cadeiras começaram a mover-se deslizando pelo chão…uma a uma foram se afastando da mesa abrindo espaço, convidando a se sentarem…
Não…as cadeiras estavam a chamar…
O ar ficou tão gelado que a respiração de Isabel começou a formar pequenas nuvens de fumo …a sua pele arrepiou-se, e por um instante sentiu um toque na nuca … um toque leve, quase curioso …
A voz de sua avó ecoou na memória:
"O que entra pela porta se não te sentares, não pertence ao mundo dos vivos."
Com as mãos trêmulas, Isabel aproximou-se da cadeira…
O quinto cartão deitava um calor estranho, como se guardasse um segredo que implorava para ser revelado… como se implorasse ser virado …
Ela virou-o e o mundo pareceu parar…
"Isabel Duarte
1987–2025"
O ano estava completo agora ,e era o ano atual…
A vela central explodiu numa labareda que se contorcia para o alto , e parecia dar um grito silencioso…
As cadeiras vibraram…
Os pratos bateram como se mãos invisíveis estivessem impacientes…
A porta, a mesma que havia batido , começou a abrir-se lentamente, sem que ninguém lhe tocasse… um clarão escuro, impossível, vazou pelo vão da casa…
Então Isabel entendeu…
No primeiro ano, a ceia aparece para quem está sozinho…
No segundo, ela cobra presença…
Com a garganta apertada, ela sentou-se.
No instante em que tocou a cadeira, a porta parou de abrir-se …
A escuridão recuou…
Mas algo ficou para trás, algo que entrou no apartamento antes de recuar… Isabel sentiu ,ouviu … respirou o mesmo ar…
A mesa tremeu como se estivesse viva…
E alguém ,ou algo ,sentou-se ao seu lado…
A vela apagou…
O sino tocou de novo…
E de novo…
E de novo…
A última ceia tinha começado…
5 comentários:
POST Maravilhoso. PARABÉNS A AUTORA! Esperamos mais textos futuramente...
Muito bom!!!!!!!!! Grande abraço, M1ke
DEU UM POUCO DE MEDO!
Que lindo adorei 👏🏻❤️
Parabéns Sandra!!
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